O Fundador

88De 1988 para cá, padre Mário Pozzoli fez para milhares de pessoas pobres o que muitos governantes brasileiros não conseguiram fazer. Tirou-as de uma situação de miséria e desesperança e deu-lhes amor, formação humana e profissional. As várias pessoas que passaram pelo Projeto Providência só têm palavras de agradecimento a esse “homem de Deus”.

Aliás, padre Mário afirma que foi Deus, quando ele tinha 10 anos de idade e estava dentro da igreja de sua cidade-natal, Lentate Sul Seveso (Itália), que o chamou para ser missionário. Ele entrou para a Congregação dos Padres Barnabitas e veio ser missionário no Brasil. Após 20 anos no Pará e cinco no Rio de Janeiro, mudou-se para Belo Horizonte, onde também atendeu ao pedido do então arcebispo, cardeal dom Serafim Fernandes de Araújo, para que iniciasse uma obra social, com o objetivo de atender às crianças e jovens da Favela dos Caixotes, hoje Vila Maria.

Como é do seu feitio, padre Mário não se esquivou. Com seu jeito “esquentado” e coração de manteiga, foi juntando crianças, jovens, educadores e colaboradores. Mesmo com as dificuldades financeiras, o sacerdote expandiu o Projeto para outras favelas. Hoje são três unidades, cerca de 3 mil crianças, adolescentes e jovens atendidos e despesas diárias de aproximadamente R$ 10 mil. “Sinto-me um parceiro de Deus e meu sonho é que projetos semelhantes cheguem a todas as favelas do Brasil”. Saiba um pouco mais sobre suas ideias.

Entrevista com o Padre Mário Pozzoli:

Como o senhor se sente à frente do Projeto Providência?
Eu me sinto um escolhido por Deus para realizar um maravilhoso plano de amor, em favor da juventude das favelas.O Projeto foi fundado em 1988 e atende, diariamente, cerca de 3 mil crianças, adolescentes e jovens. Como o senhor o sonhou?
Eu não sonhei: só obedeci a um pedido do então arcebispo de Belo Horizonte, cardeal dom Serafim Fernandes de Araújo, para fazer alguma coisa em benefício das crianças e adolescentes de Vila Maria (antiga Favela dos Caixotes), que pertencia à Paróquia Nossa Senhora das Vitórias, da qual eu era pároco.

E como o senhor realizou o pedido de dom Serafim?
O Projeto se realizou por si mesmo. Dom Serafim pediu que eu fizesse alguma coisa e eu comecei.

Que condições o senhor tinha para “fazer alguma coisa” que depois se transformou nesta obra grandiosa, que é hoje o Projeto?
Eu não tinha nada: não tinha espaço; não tinha dinheiro; não tinha pessoas conhecidas (era recém-chegado do Pará).

Mas que capacidades especiais o senhor tinha e tem para desenvolver e coordenar uma obra dessa?
As pessoas que me conhecem dizem: “você é doido, você é estúpido, você é brigão… Alguém me disse que eu tenho muita fé”. Quantos projetos que os técnicos de vários Governos lançam e depois de um tempo desaparecem…
E o Projeto está aí desde 1988! Eu mesmo estou surpreso, porque vejamos:

1. Não estudei Psicologia e devo coordenar cerca de 200 trabalhadores no Projeto, a maioria proveniente das próprias comunidades;
2. Não estudei Sociologia e devo atender cerca de 3 mil crianças e adolescentes e aos problemas dos pais deles (naturalmente com a ajuda de muitos colaboradores);
3. Não estudei Pedagogia e devo participar e orientar os professores;
4. Não estudei Economia e devo administrar os gastos de R$ 10 mil reais por dia, sem uma entrada fixa (muitas vezes trabalhando no vermelho);
5. Não estudei Política e/ou Diplomacia e tenho que tratar com políticos e autoridades.

Mas, afinal, qual o segredo do sucesso do Projeto?
Não sei! Não sabia e nem esperava que o Projeto se desenvolvesse tanto; talvez se tivesse sabido…  A minha visão é esta: entrei num barquinho na beira mar (“fazendo alguma coisa”) e quando abri os olhos estava num grande navio cheio de crianças no meio do mar: o que fazer? A tentação era abandonar o navio. Mas como? Não podia ter essa coragem, nem pensar! E até hoje o navio é sempre maior, do mar passou ao oceano, as tempestades aumentaram… Só Deus pode dizer qual é o segredo e dar uma solução.

O senhor já pensou em fazer alguma coisa diferente para sensibilizar as autoridades e a sociedade para atender aos excluídos? Por exemplo, o bispo dom Cápio faz jejum para que não haja a transposição do rio São Francisco. E o senhor, já pensou em fazer algo especial?

 Bem… Eu “brigo” muito para conseguir o mínimo para atender às 3 mil crianças… Ah, sim: eu passei 15 dias na Praça 7, no centro de Belo Horizonte, inclusive me limitando a comer, durante o dia, só pão seco e água.

E deu resultado?
Deu… Nem tanto, mas deu… A entrevista que a Rádio Itatiaia fez comigo, naquela ocasião, mexeu com o pessoal. Acho que ainda estão amadurecendo os frutos daquilo que plantamos.

O senhor já foi ameaçado de morte?
Umas seis vezes, grupos quiseram se organizar para acabar com quem prejudicava seus negócios atendendo às crianças, mas terminou não dando em nada. Por duas vezes, fiquei na mira de armas de fogo: a primeira foi uma espingarda usada por uma pessoa, que estava escondida sobre uma árvore, a 5 metros de distância; e a outra, uma pistola apontada na minha cara. Mas, Deus me salvou.

Mas o que lhe dá tanta vontade, tanta força para enfrentar as dificuldades? O que o senhor ganha com isso?
Nem penso em ganhar. Para mim, o que faço comparo à vontade que todo mundo tem de viver. Por que todo mundo quer viver? Se meus pais me deram a vida que tenho, Deus me deu essa vontade de servir aos mais necessitados. Dom Serafim concretizou isso, me pedindo para “fazer alguma coisa” para as crianças das favelas. Mas a raiz profunda que me leva, naturalmente, a me ocupar dos mais necessitados, vem de Deus.

Como o senhor pode ter certeza disso?
Pode parecer incrível, mas é a verdade. Quando tinha 10 anos e meio, rezando aos pés de Nossa Senhora do Rosário, padroeira da minha cidade, senti claramente um chamado de Deus para ser missionário. Isto é, ser aquele sacerdote que deixa até sua terra, seus parentes, para ir servir onde há necessidades especiais.

Com menos de 11 anos, o que o senhor podia entender de chamado ou de vocação?
Pois é… Mas o chamado foi tão forte, tão explícito que inundou todo o meu ser. Um colega meu, que estava do lado, quando saímos da Igreja me perguntou: “o que aconteceu com você, Mário?” Eu não quis falar, mas sabia muito bem o que tinha acontecido! Depois de anos, o mesmo amigo ainda me perguntava: “você lembra aquele dia… o que aconteceu com você“? Aí eu falei a verdade. Até hoje sou o que sou, porque senti aquele chamado e, se eu um dia afirmasse que não sei se Deus me chamou, seria o pior mentiroso do mundo.

É uma vida e tanto… Mas e agora, o que o senhor pensa em relação ao futuro?
Em relação ao Projeto está nas mãos de Deus. Não consigo prever o futuro. Só peço a Deus que ele não se transforme em colégio para atender a filhos de ricos. Não seria mais o Projeto Providência.

E seus sonhos, quais são eles?
Sonhos eu tenho demais, mas vou relatar alguns. O primeiro é que cada favela tenha um Projeto Providência ou coisa parecida, que atenda à juventude. Outro sonho é que cada pároco, que tem uma favela em sua paróquia, comece a “fazer alguma coisa” específica para o futuro dos jovens. Tenho ainda mais dois sonhos, que valem para a juventude do mundo inteiro, mas que são mais urgentes (e talvez mais difíceis) para o jovem pobre: que as crianças e adolescentes sintam a alegria de participar do estudo (educação). Toda criança sonha crescer, e o estudo bem feito a faz crescer com alegria. E que todo jovem sinta a alegria do trabalho. O jovem normal (isto é, bem atendido na sua infância) gosta de se realizar no que produz. O trabalho bem feito lhe dá condições de participar da criação. Ele se torna um parceiro de Deus: o que é melhor do que isso? Eu me sinto um parceiro de Deus!!

Falando em parceiro, qual a ajuda que o Governo dá ao Projeto?
Todo mundo sabe que o Governo está passando por grandes transformações em relação à política de assistência social, em particular a assim chamada “municipalização”. Os Governos Federal e Estaduais não têm mais verba para aplicar diretamente na camada mais pobre.

 

CURRICULUM
Nome completo: Mário Pozzoli
Nome conhecido: Pe. Mário
Filiação Pai: Giuseppe Pozzoli
Mãe: Camilla Fumagalli
Data de nascimento: 25/03/1931
Cidade em que nasceu: Lentate Sul Seveso / Província de Milano
Pais: Itália

Ordenações:

– Diaconal: 20/10/58 – Roma
– Presbiterial: 31/12/58 – Roma
Vinculação: Religioso
Bispo Ordenante: Cardeal Confalonieri
Família religiosa: Padres Barnabitas – CRSP (Cléricos Regulares de São Paulo)
Profissão Solene realizada a 11/10/56, em Roma

– Endereço para correspondência: Av. do Contorno, nº 6475 – Bairro: São Pedro
Cep: 30.110.110 – Cidade: Belo Horizonte – Estado: Minas Gerais – Pais: Brasil
Telefones: (31) 3225.4636 ou (31) 3223.8609
Pessoa para contato: Pe. Victor Baderacchi – Tel: (31) 3221.0777
– Estudos:
– Filosofia: Realizado em Lodi – início: 15/10/51 – término: 05/07/54
– Teologia: Realizado em Roma – início: 16/09/55 – término: 17/06/55
– Atividades atuais: Diretor – Presidente do Projeto Providência

HISTÓRICO DAS FUNÇÕES MINISTRADAS E/OU OUTRAS EXERCIDAS ANTERIORMENTE:

1960 a 1965 – Vice Mestre dos Noviços
1965 a 1970 – Vigário da Catedral de Bragança (Pará)
1970 a 1978